Em nossa história contemporânea, a imprensa venceu grandes obstáculos, como a censura que durante bom tempo mascarou a realidade. Nesse aspecto, o jornalismo contribui sobremaneira para o avanço libertário dos povos. Conquanto desde sua gênese, um outro problema surgiu nos meios de comunicação: a questão ética.
A ética tem sido um tema constante em todos os setores que compreendem a sociedade politicamente organizada. Durante o desenrolar das épocas vem se fortalecendo, aprimorando-se através de debates e convenções promovidos pelos organismos que a cultivam, com fins de facilitar, orientar e ajustar suas ações dentro de um contexto, onde os direitos sejam respeitados e os abusos dissipados. Tudo fazendo para que se forje dia-a-dia uma sociedade mais íntegra.
No livro “A imprensa e o dever da verdade” apesar de pouco extenso, Rui Barbosa apresenta sua indignação quanto os descaminhos seguidos pelo jornalismo, que em busca de sobrevivência e fatias maiores de lucro, deixou-se apadrinhar pelos poderes do Estado. Onde passa não mais a divulgar a verdade legitima e sim aquela que beneficie numa forma de publicidade aquele a quem o jornal deve favores diretos e indiretos.
Rui é veementemente contra a essas ações descabidas que fogem ao dever da verdade e ataca de forma mais contundente o jornalismo que ultrapassa as fronteiras do absurdo, onde a mentira passa a ser vestida pelos jornalistas com a roupagem da verdade… “Em quatro palavras se poderá encartar uma calunia. Mas pode ser que a demonstração da falsidade não caiba toda num discurso”. Aqui Rui Barbosa exprime a responsabilidade que tem os jornalistas diante dos fatos e atos aos quais tem em mãos para publicar. O estrago que pode ser causado por uma calunia uma difamação em troca de favores, ou mesmo por questões pessoais da índole humana.
Rui Barbosa, em seu livro vê a sociedade como um sistema fisiológico, onde a imprensa tem influência em todos os órgãos que a compreendem. Diz ele que, como o ar através do oxigênio é imprescindível para manter nosso organismo em atividade, alimentando todas as células morfológicas das diversas estruturas do corpo humano, a imprensa livre e isenta de corrupção se faz necessária à sobrevivência da sociedade a qual estamos inseridos. Caso contrário seria como respirarmos o ar contaminado por miasmas nocivos, o que nos fadaria a morte. Da mesma forma a imprensa não pode contaminar-se com as questões econômicas que a tornam deteriorada, servilizada e mercantilista.
Voltando-se ao pensamento de Rui, se vê claramente que suas idéias ainda correspondem a nossa atualidade, onde, aparecer é inevitável para alguns políticos e até mesmo criminosos, quanto mais, melhor. Suas declarações são proporcionais às fotos, o que vale é sua imagem estampada, de preferência, na primeira página. E o pior de tudo é que os meios de comunicação se satisfazem e se sustentam com essas fontes.
Partindo do exposto in supra, na academia já são normais os questionamentos: cadê a tal ética? Cadê a tal imparcialidade? Por que a imprensa toma partido nas questões políticas do país, mesmo que de forma dissimulada? E a resposta encontra-se na análise fria desde livro, onde se pode observar que, num mundo capitalista, a sobrevivência está logicamente atrelada aos fundamentos econômicos, que estrangularam de vez os ideais de um jornalismo autêntico e sem interferência da esfera sorrateira, política e econômica do Estado.
Analisando o pensamento de Rui, percebe-se que muitos fatores essenciais para desenvolver um bom jornalismo estão sendo negligenciados, como a questão de que em relação a informação, nos defrontamos com o aspecto ético de uma forma mais frontal, por ser o jornalista antes de tudo um disseminador de idéias e opiniões. E diante disso a sua responsabilidade ética para com o contexto social, através do compromisso com a verdade se torna mais exigente e abrangente.
Infelizmente, desde a época do autor, a ética de alguns jornalistas e de algumas empresas se confunde com interesses escusos de políticos. Se levarmos em conta que quando o jornalista escreve para o seu leitor, ele tem a responsabilidade de fazer um jornalismo sério e ético, -faz parte de seu contrato com os leitores-, veremos que isso não é respeitado, porquanto se torna algo secundário, perdendo espaço para os interesses comerciais da empresa a que está agregado de forma imobilizada, pelas algemas da sobrevivência em todos os aspectos, principalmente o econômico.
É normal dentro da academia depois de se ter conhecido a realidade jornalística fora das cátedras, se ter ainda a esperança de construção de um jornalismo que tenha somente sua razão de ser, voltada para o social e o compromisso com a verdade. Porém, contriste observa-se que este tipo de jornalismo é um tanto irrealizável, por ser praticamente ingênuo e romântico frente ao capitalismo que dita as regras e fomenta uma concorrência muitas vezes pérfida, que se apossou das mentes e corações movedores da imprensa nacional e porque não dizer mundial.
“Somente onde os povos se acostumaram a tomar conta de seus administradores, e estes a dar-lhas, é que homens públicos apreciam as vantagens dos regimes de responsabilidade” Rui, nesta sentença deixa clara a responsabilidade da imprensa em divulgar todos os feitos dos poderes de forma imparcial, pois é através dela que os componentes da sociedade terão conhecimento dessas ações e então exigir providencias quando não estiverem de acordo com o contrato social vigente, caso contrário estará a imprensa trabalhando contra seus próprios leitores e favor dos poderes constituídos, o que não justifica seu papel na sociedade e seu compromisso com a verdade.
Para o autor a imprensa vendeu-se, prostitui-se de forma menos honrosa e mais contagiosa que as mulheres de mau viver. Tendo o tesouro nacional, estadual e o municipal como seus patrocinadores, em troca de publicações com endeusamento e pregando a inocência de corruptos, ao mesmo passo, que segundo o autor, desonra e achincalha em ultrajes os verdadeiros homens de honra. Rui nas linhas desse livro, leva-nos a meditar em torno do adágio popular: “quem furta é ladrão, quem muito furta é barão”.
Barbosa se refere aos jornais como casas de prostituição intelectual. E enfatiza que eles “os jornais” estariam fechados se retirassem todo o dinheiro proveniente do tesouro nacional, do tesouro estadual e do tesouro municipal, que os sustentam e que deveriam ajudar guardar dos maus homens públicos, denunciando e expondo-os a opinião publica e não se beneficiar destes assaltos.
Ainda, segundo o autor um homem ao tornar-se público tem sua vida particular e privada convertidas em paredes de vidro, e a imprensa tem o dever de vigiá-las. Porém, isso não acontece pelo fato do jornalismo autêntico ter se vendido ao poder. Acrescenta ainda Rui que diante de escândalos a grande maioria da imprensa se cala, por estar devidamente dependente de quem os promove e sustenta. E como refém do Estado passa então a combater os efeitos negativos ocasionados, como a publicidade, trocando a verdade pela descabida mentira. O que além da degeneração de uma República sólida, causa impactos negativos em níveis internacionais, que diante desses episódios não levam a sério o país e a América Latina, uma vez que não repercutindo aqui, encontram espaço para repercutir mundo a fora.
Na obra “A imprensa e dever da verdade” fica exposto que o grande convívio imbróglio da imprensa com os poderes políticos do Brasil. Percebe-se que desde há muito a vergonha exilou-se nos dias negros que tiveram o nascedouro na gênese da República, enquanto que a mentira saiu das galerias subterrâneas em meio a escoria para caminhar entre nós de cabeça erguida, e altiva a nos envolver por seus tentáculos, que alguns para não ver e nem sentir a podridão que traz consigo, a batizam, com o eufemismo ideologia.
Chega-se a conclusão que a atual imprensa corrompeu de vez o compromisso com a verdade, pois atrelado a um sistema de pensamento ideológico ou filosófico, fica difícil, se não impossível, manter a imparcialidade, regra primaz de um jornalismo autêntico e dinâmico.
Percebe-se também que o jornalismo apesar de ter nascido para facilitar e estreitar cada vez mais nossos laços sociais e fraternais perdeu-se no curso de nossa história, sendo sequestrado pelo poder.
Conclui-se que através de ações voltadas para um jornalismo sem compromisso com o poder, -no caso o jornalismo comunitário- estaremos a caminho, na busca incessante de construirmos um jornalismo voltado para sua verdadeira essência. Mas, somos cientes de que isso é apenas um sonho de quem acaba de sair de uma universidade e ainda não levou a primeira pancada na moleira.



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